Existe uma diferença enorme entre orar de vez em quando e ter uma vida de oração. Podemos acreditar profundamente no poder da oração, conhecer dezenas de versículos sobre o assunto, frequentar uma igreja, participar de grupos de intercessão, pedir oração quando enfrentamos dificuldades e até contar testemunhos de respostas que já recebemos de Deus. Ainda assim, nenhuma dessas coisas responde à pergunta que dá nome a esta série: você realmente tem uma vida de oração?
A pergunta não é se você ora. Provavelmente ora. A questão é se a oração se tornou parte consistente da sua vida ou se aparece apenas em determinados momentos dela. Se fosse possível reunir todo o tempo que você realmente separou para estar diante de Deus ao longo dos últimos anos, buscando Sua Presença, adorando, confessando, agradecendo, intercedendo e permanecendo diante dEle sem que uma emergência o obrigasse a fazer isso, o que essa conta revelaria sobre sua vida espiritual?
Talvez você conheça Jesus há cinco, dez, vinte ou trinta anos. Talvez tenha ouvido milhares de pregações, participado de incontáveis cultos e lido muitos textos sobre oração. Mas existe uma pergunta desconfortável que precisamos enfrentar: se juntássemos todos os períodos em que realmente paramos para buscar a Deus, quanto tempo teríamos? Talvez seja justamente por isso que a frase seja tão provocadora: Juntando todos os dias da minha vida de oração, não dá os 21 dias de Daniel. Não estamos transformando oração em cronômetro nem dizendo que Deus mede relacionamento pela quantidade de minutos que alguém permanece de joelhos. Estamos confrontando uma realidade muito mais profunda: podemos passar anos dizendo que Deus ocupa o primeiro lugar enquanto, na prática, oferecemos a Ele apenas pequenas sobras do nosso tempo.
É fácil dizer que não temos tempo. Nossa rotina pode realmente ser cansativa, nossas responsabilidades podem ser muitas e existem períodos em que a vida exige quase tudo de nós. Porém, precisamos ter coragem para observar onde o restante do nosso tempo está sendo colocado. Muitas vezes não conseguimos permanecer quinze minutos em oração, mas conseguimos ficar muito mais do que isso diante de uma tela. Estamos cansados demais para buscar a Deus, mas ainda encontramos disposição para mensagens, vídeos, notícias, redes sociais, conversas e entretenimento. Nem sempre o problema é falta de tempo. Em muitos casos, precisamos admitir que o problema é prioridade.
Jesus disse: Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. Mateus 6:6. Há algo precioso nessas palavras. Jesus nos apresenta o secreto como lugar de encontro com o Pai. Não existe plateia, não existe necessidade de demonstrar espiritualidade, não existe microfone, música ou alguém conduzindo. Existe apenas uma pessoa que decidiu fechar a porta para aquilo que está do lado de fora e permanecer diante daquele que está no secreto.
Talvez um dos grandes problemas da nossa geração cristã seja exatamente este: continuamos cercados de coisas de Deus enquanto passamos cada vez menos tempo a sós com Deus. Ouvimos mensagens, acompanhamos pregações, compartilhamos versículos, consumimos conteúdos cristãos, participamos de cultos e recebemos diariamente palavras sobre o Senhor. Podemos passar muito tempo ouvindo outras pessoas falarem sobre Deus e quase nenhum tempo falando diretamente com Ele. Aos poucos, sem perceber, substituímos relacionamento por conteúdo, intimidade por informação e vida de oração por momentos ocasionais de oração.
Então chega a crise. Uma enfermidade aparece, o casamento começa a enfrentar problemas, um filho entra em dificuldade, as finanças apertam, uma notícia inesperada chega ou alguma situação foge completamente do nosso controle. Nesse momento, a pessoa que dizia não conseguir encontrar tempo para orar descobre que consegue passar longos períodos clamando. O problema nunca foi acreditar na oração. O problema foi permitir que a necessidade se tornasse aquilo que finalmente nos levou ao lugar onde deveríamos estar antes dela chegar.
Daniel nos confronta justamente nesse ponto. Quando soube que havia sido assinado um decreto que poderia levá-lo à morte caso continuasse buscando seu Deus, ele entrou em casa, abriu as janelas em direção a Jerusalém, colocou-se de joelhos e orou. Mas o detalhe mais importante está no final do versículo: …e orava, e dava graças, diante do seu Deus, como costumava fazer. Daniel 6:10. A expressão como costumava fazer revela que aquela oração não nasceu do desespero provocado pelos leões. Daniel possuía uma vida de oração antes de existir uma cova esperando por ele.
A crise não ensinou Daniel a orar. A ameaça não criou sua disciplina espiritual. Os inimigos não produziram sua intimidade com Deus. Quando tudo começou a desmoronar ao seu redor, Daniel simplesmente continuou fazendo aquilo que já fazia nos dias comuns. A cova não criou sua vida de oração. A cova apenas revelou a vida de oração que ele já tinha. Essa verdade nos obriga a fazer uma pergunta ainda mais séria: se nossa cova chegasse hoje, encontraria alguém acostumado a buscar a Deus ou alguém tentando construir às pressas uma intimidade que negligenciou durante anos?
É por isso que estes 14 dias serão de confronto. Vamos olhar com sinceridade para nossa relação com o tempo, nossas prioridades, nossas distrações, nossa dependência do celular, nossa dificuldade de permanecer diante de Deus, nossas orações feitas apenas quando precisamos de alguma coisa e até para a possibilidade de conhecermos muitas coisas sobre o Senhor enquanto mantemos pouca comunhão com Ele. Não queremos aliviar aquilo que precisa ser confrontado, porque algumas desculpas espirituais foram repetidas tantas vezes que acabaram parecendo justificativas legítimas.
Mas confronto bíblico não é condenação. Deus não mostra nossa distância para nos convencer a permanecer longe. Ele revela aquilo que precisa ser mudado porque ainda existe um caminho de volta. Talvez você perceba durante esta série que perdeu muito tempo. Talvez descubra que já teve uma vida de oração mais intensa e permitiu que ela esfriasse. Talvez reconheça que nunca conseguiu construir constância no secreto. Não importa qual seja sua realidade, você não poderá recuperar os anos que passaram, mas pode decidir o que fará com o tempo que Deus colocou diante de você agora.
Você não precisa começar prometendo horas de oração, criando metas impossíveis ou tentando impressionar Deus com palavras bonitas. Precisa começar voltando. Voltar ao secreto, à conversa sincera, à Palavra, ao arrependimento, à gratidão, à adoração e à simplicidade de permanecer diante do Pai mesmo quando não existe nada urgente para pedir. Precisamos reaprender a buscar Deus não somente porque alguma coisa deu errado, mas porque desejamos Sua Presença. Precisamos aprender a orar antes da cova, antes dos leões, antes do diagnóstico, antes da crise financeira, antes do problema dentro de casa e antes que todas as alternativas humanas tenham se esgotado.
Ao final destes 14 dias, o propósito não será olhar para trás e dizer que completamos mais uma série. Queremos algo que continue quando a última oração terminar. Queremos reconstruir o secreto, recuperar a constância e permitir que a oração deixe de ser apenas uma reação às necessidades para voltar a ser relacionamento com Deus. Talvez hoje a pergunta Você realmente tem uma vida de oração? produza uma resposta que nos constranja. Mas a história não precisa terminar com a resposta que damos hoje. Estes 14 dias podem marcar o começo de uma mudança que continue por muitos anos.
Oração de Início
Pai, eu começo estes 14 dias sem querer esconder de Ti aquilo que Tu já conheces. Tu sabes como tem sido minha vida de oração, conheces os momentos em que Te busquei sinceramente e também os muitos dias em que encontrei tempo para tantas outras coisas, mas deixei a comunhão Contigo para depois. Conheces minhas desculpas, minhas distrações, minha inconstância e todas as vezes em que somente me aproximei porque precisava desesperadamente de uma resposta, de uma cura, de um livramento, de uma porta aberta ou de uma solução.
Perdoa-me quando procurei mais Tuas respostas do que Tua Presença, quando desejei aquilo que Tu poderias fazer por mim mais do que desejei estar Contigo. Perdoa-me pelas vezes em que disse não ter tempo para orar enquanto entregava partes preciosas do meu dia a coisas que poderiam esperar. Eu não quero justificar minha superficialidade nem continuar chamando de falta de tempo aquilo que, muitas vezes, foi falta de prioridade.
Durante estes 14 dias, confronta meu coração por meio da Tua Palavra. Mostra-me aquilo que tem roubado meu secreto, revela as prioridades que precisam ser reorganizadas e não permitas que eu simplesmente leia estes textos, faça estas orações e continue vivendo exatamente como antes. Ensina-me novamente a desejar estar Contigo, não somente quando preciso de alguma coisa, mas porque reconheço que nenhuma bênção pode substituir a comunhão com o Senhor.
Eu não quero esperar a cova para aprender a orar. Não quero precisar dos leões para descobrir o quanto necessito de Ti. Quero buscar-Te antes da crise, conhecer-Te nos dias comuns e desenvolver uma história Contigo que não dependa das circunstâncias ao meu redor. Se minha vida de oração esfriou, ajuda-me a voltar. Se nunca desenvolvi constância, ensina-me a começar. Se minhas distrações se tornaram maiores do que minha fome pela Tua Presença, desperta novamente meu coração.
Que estes 14 dias não sejam apenas mais uma série concluída. Que sejam o começo da reconstrução do meu secreto. Quando chegar à última oração, que eu não tenha apenas aprendido mais sobre oração, mas esteja realmente orando mais, permanecendo mais, buscando mais e desejando mais a Tua Presença. Eu não quero apenas falar sobre oração. Eu quero voltar a orar de verdade. Em nome de Jesus Cristo. Amém.
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Quanto Você Realmente Ora? (001)
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