Deus, ensina-me a te chamar de Pai – Introdução

Existem palavras que carregam muito mais do que um significado. Elas carregam lembranças, sentimentos, experiências e, algumas vezes, feridas. A palavra “pai” é uma delas. Para algumas pessoas, falar sobre pai significa recordar proteção, presença, segurança, carinho, conselhos e cuidado. Para outras, porém, essa mesma palavra pode despertar sentimentos completamente diferentes. Pode trazer à memória ausência, abandono, rejeição, autoritarismo, indiferença, cobranças excessivas, palavras duras, promessas não cumpridas ou simplesmente a dor de ter desejado um relacionamento que nunca existiu da maneira como deveria.

Quando Jesus ensinou Seus discípulos a orar, Ele começou dizendo: “Pai nosso, que estás nos céus”. Há algo profundamente significativo nisso. Jesus estava nos mostrando que Deus não deseja ser conhecido apenas como Criador, Senhor e Todo Poderoso. Ele também Se revela como Pai. Entretanto, para quem teve uma experiência de paternidade marcada pela dor, chamar Deus de Pai pode ser muito mais difícil do que simplesmente pronunciar essa palavra durante uma oração. Podemos saber intelectualmente que Deus nos ama e, ainda assim, ter dificuldade para descansar nesse amor. Podemos conhecer as promessas das Escrituras e continuar com medo do abandono. Podemos servir, orar, buscar a Deus e frequentar a igreja, mas permanecer interiormente tentando conquistar Sua aprovação, como se precisássemos provar constantemente que merecemos ser amados.

Muitas vezes não percebemos o quanto nossa experiência com nosso pai terreno influenciou a maneira como nos relacionamos com Deus. Se crescemos com um pai distante, podemos imaginar um Deus distante. Se convivemos com alguém extremamente exigente, podemos pensar que Deus nunca está satisfeito conosco. Se nosso pai prometia e não cumpria, podemos encontrar dificuldade para confiar nas promessas do Senhor. Se experimentamos rejeição, podemos viver esperando que Deus também nos rejeite. Se nunca recebemos palavras de afirmação, talvez tenhamos dificuldade para acreditar quando a Palavra nos apresenta como pessoas conhecidas, acolhidas e profundamente amadas por Deus. Assim, sem perceber, podemos colocar sobre o rosto do Pai celestial características pertencentes a pessoas imperfeitas que também carregavam suas próprias limitações e histórias.

Por isso, existe uma verdade que será fundamental durante toda esta caminhada: Deus não deve ser interpretado a partir da experiência que tivemos com nosso pai terreno. É a paternidade de Deus que revela aquilo que um pai deveria ser. Deus é o padrão. Ele não é uma versão melhorada de nossos pais terrenos. Sua fidelidade não depende da fidelidade que conhecemos nas pessoas. Seu amor não possui as limitações do amor humano. Sua presença não é instável. Seu cuidado não está condicionado ao nosso desempenho. Precisamos permitir que as Escrituras reconstruam dentro de nós aquilo que experiências dolorosas podem ter distorcido.

Esta série não foi criada para procurar culpados, alimentar ressentimentos ou transformar nossos pais em responsáveis por todas as dificuldades que enfrentamos hoje. Muitos deles também carregaram feridas que nunca foram tratadas. Alguns ofereceram aquilo que receberam e, infelizmente, outros ofereceram muito menos do que poderiam. Existem histórias marcadas por limitações, outras pela ausência e também existem histórias profundamente dolorosas, nas quais aconteceram coisas que jamais deveriam ter acontecido. Reconhecer uma ferida não significa desonrar alguém. Significa admitir que existe um lugar em nossa história que precisa ser alcançado pela luz, pela verdade, pela graça e pela restauração de Deus.

Durante estes 30 dias, não permaneceremos presos ao que aconteceu. Caminharemos da ferida para a verdade. Falaremos sobre rejeição, abandono, falta de proteção, ausência de afeto, necessidade de aprovação, medo de confiar, dificuldade de receber amor e tantas outras marcas que podem interferir em nossa compreensão da paternidade de Deus. Em cada oração, porém, voltaremos nossos olhos para aquilo que as Escrituras revelam sobre o Pai. Conheceremos o Pai que vê, que ouve, que permanece, que acolhe, que disciplina em amor, que conhece nossas necessidades, que não abandona Seus filhos e que, por meio de Cristo, nos recebe em Sua família.

Talvez alguns dias desta jornada alcancem lugares que acreditávamos já estarem resolvidos. Talvez determinadas lembranças retornem e finalmente consigamos compreender por que algumas situações ainda provocam medo, insegurança, necessidade de aprovação ou dificuldade para confiar. Não precisamos ter pressa. Restauração não significa apagar a história nem fingir que nada aconteceu. Significa permitir que aquilo que aconteceu deixe de determinar aquilo que acreditamos sobre Deus, sobre nós mesmos e sobre nosso valor. Algumas lembranças continuarão fazendo parte da nossa história, mas não precisam continuar governando nosso coração.

Ao longo desta caminhada também aprenderemos algo fundamental sobre perdão. Perdoar não significa dizer que aquilo que aconteceu foi correto, minimizar uma ferida ou negar as consequências de determinadas atitudes. Também não significa necessariamente reconstruir relacionamentos que continuam sendo destrutivos. O perdão nos conduz a entregar a Deus aquilo que não podemos mudar e a recusar que a amargura continue ocupando nosso interior. Há situações em que a restauração de um relacionamento será possível, enquanto em outras talvez sejam necessários limites sábios. Em todas elas, porém, podemos permitir que Deus trate nosso coração e nos liberte do domínio que o passado ainda exerce sobre o presente.

A cada dia teremos um versículo, uma oração, um decreto fundamentado na Palavra, uma reflexão, um desafio e uma palavra de esperança. Os decretos não serão fórmulas mágicas nem tentativas de negar sentimentos e acontecimentos. Serão declarações da verdade bíblica diante das mentiras que nossas feridas podem ter produzido. Não declararemos que nunca mais sentiremos dor ou que todas as lembranças desaparecerão imediatamente. Declararemos quem Deus é, quem somos nEle e qual verdade escolhemos colocar acima das conclusões produzidas pelas experiências que vivemos.

A Palavra de Deus nos diz: “Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai.” Romanos 8:15. Essa será uma das verdades que acompanharão toda a nossa jornada. Em Cristo, não fomos chamados para viver diante de Deus como pessoas constantemente aterrorizadas pela possibilidade da rejeição. Recebemos o Espírito de adoção. Podemos nos aproximar. Podemos clamar. Podemos aprender a confiar. Podemos descobrir que existe pertencimento mesmo quando nossa história familiar deixou em nós a sensação de não pertencermos a lugar algum.

Nosso desejo ao final destes 30 dias não é simplesmente conhecer mais versículos sobre a paternidade de Deus. Queremos permitir que essa verdade alcance lugares cada vez mais profundos dentro de nós. Existe um Pai que permanece quando outros foram embora. Existe um Pai cuja palavra continua firme quando as circunstâncias mudam. Existe um Pai diante de quem não precisamos esconder nossas fragilidades. Existe um lugar à mesa. Existe pertencimento. Existe adoção. Existe uma identidade que não depende daquilo que recebemos ou deixamos de receber das pessoas.

Que estes 30 dias sejam uma caminhada da rejeição para o pertencimento, do medo para a confiança, da necessidade de aprovação para a segurança do amor, das marcas da paternidade humana para a revelação da paternidade divina. Que Deus alcance nossa história sem permitir que permaneçamos aprisionados a ela. E que, quando chegarmos ao final desta jornada, chamar Deus de Pai já não seja apenas uma expressão que aprendemos na igreja ou uma palavra que pronunciamos durante nossas orações. Que “Pai” tenha se tornado, dentro de nós, o nome de um lugar seguro para onde nosso coração aprendeu a voltar.

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