Antes da Cova (012)

Versículo
Daniel, pois, quando soube que a escritura estava assinada, entrou em sua casa e, em cima, no seu quarto, onde havia janelas abertas do lado de Jerusalém, três vezes por dia, se punha de joelhos, e orava, e dava graças, diante do seu Deus, como costumava fazer.
Daniel 6:10

Confronto
Daniel não começou a orar quando soube que poderia morrer. Essa talvez seja uma das verdades mais confrontadoras de toda esta série. Quando o decreto foi assinado, a cova já estava no horizonte e os leões se tornaram uma possibilidade real, Daniel não correu desesperadamente para aprender a buscar a Deus. Ele simplesmente continuou fazendo aquilo que fazia antes de existir qualquer ameaça. A expressão como costumava fazer revela uma história que não começou em Daniel 6. Havia oração antes do decreto, antes dos inimigos, antes da perseguição, antes da cova e antes dos leões. Quando chegou o pior dia, Daniel já conhecia o caminho até o secreto.

Talvez nossa história seja diferente. Muitas vezes é a cova que finalmente nos faz encontrar o caminho da oração. Enquanto tudo está funcionando, o secreto recebe poucos minutos, mas basta surgir um diagnóstico, uma crise no casamento, um problema com um filho, uma ameaça financeira ou uma notícia inesperada para descobrirmos que conseguimos orar durante muito mais tempo do que imaginávamos. O sofrimento não cria tempo no relógio, ele reorganiza nossas prioridades. E essa constatação precisa nos atingir: por que precisamos esperar os leões aparecerem para dar a Deus o lugar que Ele deveria possuir antes deles?

Oração
Pai, a história de Daniel confronta profundamente minha vida porque mostra um homem cuja comunhão Contigo não dependia das circunstâncias. Ele Te buscava quando não havia cova e continuou buscando quando a cova apareceu. Eu reconheço que muitas vezes minha intensidade na oração tem sido determinada pelo tamanho dos meus problemas. Quando estou com medo, oro mais. Quando preciso desesperadamente de uma resposta, encontro tempo. Quando alguma coisa ameaça aquilo que amo, consigo permanecer diante de Ti. Depois que a tempestade passa, porém, facilmente volto à antiga inconstância.

Eu não quero continuar precisando da dor para lembrar-me da importância da Tua Presença. Não quero construir meu secreto somente debaixo de pressão. Ensina-me a buscar-Te enquanto minha casa está em paz, enquanto minha família está bem, enquanto tenho saúde, enquanto existe provisão, enquanto nenhuma notícia assustadora chegou e enquanto a vida segue seus dias comuns. Quero compreender que os dias aparentemente tranquilos não são intervalos espirituais. São oportunidades preciosas para aprofundar minhas raízes em Ti.

Perdoa-me pelas vezes em que permiti que uma emergência conseguisse aquilo que meu amor por Ti deveria ter produzido. Perdoa-me quando a necessidade me colocou de joelhos depois que a gratidão, a dependência e o desejo pela Tua Presença não conseguiram fazê-lo. Eu Te agradeço porque me recebes também na crise e porque nunca desprezas o clamor de quem corre para Ti em sofrimento, mas eu não quero conhecer apenas o Deus que encontro quando tudo desmorona. Quero caminhar Contigo antes disso.

Forma em mim uma constância que não dependa de notícias boas ou ruins. Que minhas janelas permaneçam abertas para Ti quando ninguém estiver me ameaçando. Que meus joelhos conheçam o chão antes da emergência. Que minha Bíblia não seja aberta apenas procurando uma promessa para uma situação desesperadora. Que minhas palavras de oração não nasçam somente do medo. Quero possuir uma história Contigo que exista antes que a próxima batalha chegue.

E quando a cova aparecer, porque sei que a vida também possui dias difíceis, que ela não encontre em mim alguém desconhecido do secreto. Que a enfermidade, a perda, a oposição, a incerteza ou qualquer outra adversidade me encontre com raízes aprofundadas em Ti. Não peço uma vida sem problemas. Peço uma vida Contigo que não precise dos problemas para existir. Em nome de Jesus Cristo. Amém.

Reflexão
Quando lemos Daniel 6, é fácil concentrar toda a atenção no milagre da cova dos leões. É realmente extraordinário imaginar Daniel passando uma noite entre animais que poderiam destruí-lo e saindo sem ferimentos porque Deus enviou Seu anjo e fechou a boca dos leões. Entretanto, se observarmos apenas o milagre da cova, podemos perder uma das maiores lições do capítulo: antes de existir um homem protegido entre leões, existia um homem perseverante de joelhos.

Os inimigos de Daniel descobriram algo impressionante quando procuraram uma maneira de acusá-lo. Eles não encontraram corrupção, negligência ou desonestidade em sua administração. Por isso, decidiram usar sua fidelidade a Deus contra ele. Isso significa que a vida espiritual de Daniel era suficientemente constante para que seus inimigos pudessem construir uma armadilha baseada na certeza de que ele continuaria buscando o Senhor. Eles sabiam que um decreto não seria suficiente para interromper aquilo que fazia parte de sua vida.

Quando Daniel soube que o documento havia sido assinado, poderia ter encontrado diversas justificativas para interromper temporariamente sua prática. Poderia pensar que Deus compreenderia algumas semanas sem oração junto às janelas. Poderia orar escondido de outra maneira para preservar a própria vida. Entretanto, o texto não descreve uma negociação interior. Diz simplesmente que ele foi para casa e fez como costumava fazer. A crise encontrou uma prática já estabelecida.

Essa expressão muda nossa maneira de enxergar preparação espiritual. Frequentemente imaginamos que precisamos de fé quando o problema chegar. A Bíblia nos mostra repetidamente que raízes são aprofundadas antes da tempestade. Quando Davi encontrou Golias, já havia aprendido a confiar em Deus enquanto cuidava das ovelhas. Quando José recebeu responsabilidades no Egito, já havia tomado decisões de fidelidade quando ninguém imaginava que um dia governaria. Quando Daniel chegou à cova, já existia uma história de oração.

Isso não significa que quem possui uma vida de oração nunca sentirá medo, nunca ficará abalado ou sempre reagirá perfeitamente às crises. Significa que, quando tudo tremer, haverá raízes. A oração não é uma garantia de que nunca entraremos em covas. Daniel orava três vezes por dia e entrou em uma. O que sua história demonstra é algo diferente: uma vida com Deus não impede necessariamente que cheguemos à cova, mas muda profundamente quem somos quando chegamos lá.

Talvez tenhamos tratado a oração como um extintor espiritual guardado para emergências. Enquanto não existe fogo, quase não pensamos nele. Quando alguma coisa começa a queimar, corremos desesperadamente para procurá-lo. Mas Daniel nos apresenta outro caminho. Oração não era equipamento de emergência. Era parte de sua vida. Por isso, quando chegou a emergência, ele não precisou procurar aquilo que já fazia parte de sua rotina.

Existe ainda algo impressionante no conteúdo da oração de Daniel. O texto diz que ele orava e dava graças. O decreto que poderia levá-lo à morte já havia sido assinado e, mesmo assim, gratidão continuava fazendo parte de sua oração. Isso revela quanto sua comunhão estava fundamentada em quem Deus era, e não apenas naquilo que estava acontecendo. Daniel não esperou a cova desaparecer para reconhecer a bondade de Deus.

Hoje, talvez não exista nenhum leão diante de você. Talvez justamente por isso este seja um dos melhores momentos para aprofundar sua vida de oração. Não espere o telefonema, o diagnóstico, a crise ou a perda. Ore antes da cova. Construa hoje aquilo de que sua alma precisará quando chegar um dia que você não conseguirá controlar.

Pergunta Que Não Dá Para Ignorar
Se uma grande crise chegasse amanhã, ela encontraria em mim uma vida de oração já construída ou seria necessário que o medo finalmente me ensinasse a fazer aquilo que a tranquilidade nunca conseguiu transformar em prioridade?

Atitude de Hoje
Hoje, não espere nenhuma necessidade urgente para levá-lo à oração. Escolha um momento comum do seu dia e transforme-o em encontro com Deus. Agradeça especificamente pelas áreas da sua vida que atualmente estão bem. Ore por sua família antes que exista uma crise, pela saúde antes de um diagnóstico, pelas finanças antes de uma dificuldade e por sua fé antes de uma grande provação.

Depois, escolha algo simples que possa começar a fazer como costuma fazer. Pode ser um horário, um lugar ou um momento diário que você protegerá para oração. Não transforme isso em uma promessa grandiosa. Comece construindo constância. O objetivo é que, quando a próxima cova aparecer, ela encontre alguém que já conhece o caminho para a Presença de Deus.

Palavra Para Guardar
Não espere os leões aparecerem para descobrir o valor dos joelhos dobrados. A crise não criou a vida de oração de Daniel. Ela apenas revelou aquilo que ele já havia construído antes da cova.

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